Publicado por: ailtonmonte | fevereiro 11, 2010

Siga a Adrenalina do Diretor

Por Terrence Rafferty

Tradução de Ailton Monteiro

Publicado em 05.02.2010 (New York Times)

Texto original:
http://www.nytimes.com/2010/02/07/movies/07scorcese.html

“Iha do Medo”, o thriller detetivesco sombrio e sinuoso de Martin Scorsese, passa-se em 1954, em pleno florescimento do que W.H. Auden chamou, apenas alguns anos antes, de a Era da Ansiedade. “Não sei, talvez eu esteja preso àquela época”, disse Scorsese recentemente, parecendo um pouco cansado enquanto falava de um filme que “começou como diversão, mas eu acho que eu não sei realmente como fazer isso”, disse ele. “Sempre acaba se transformando em outra coisa.”

“Com ‘Os Infiltrados’ foi assim também”, acrescentou ele, quase suspirando, embora ele não seja um homem de muitas pausas para tomar fôlego. Se ele parecia um pouco cansado nessa tarde clara e fria de Nova York, talvez seja porque ter trabalhado até tarde na sala de edição, decupando o piloto que ele dirigiu para a série de gângsteres da HBO chamada “Boardwalk Empire”. Aos 67 anos, vivendo um momento de receber prêmios pelo reconhecimento de sua obra – ele estava voltando de uma viagem de Los Angeles para receber um daqueles prêmios honorários para quem ainda não morreu no Globo de Ouro -, o cineasta mantém-se confortável com o passar dos anos. Sua roupa é apropriada à sua idade: digna (casaco de cor neutra, bons sapatos), mas casual (sem gravata). Seu jeito nova-iorquino rápido de falar está ligeiramente menos maníaco do que antes; sua maneira característica agora é de um afável entusiasmo, como um de um padre neurastênico. E ele teve, de todo modo, o que um cineasta americano de meia-idade poderia esperar: um trabalho ousado e empolgante e uma aclamação contínua, nunca menos do que respeitável, às vezes perigosamente próxima à reverência.

Três anos atrás, “Os Infiltrados” deu a ele o seu primeiro Oscar. Depois de mais de quatro décadas de cinema (e uma vida ainda mais longa de frequentador de cinema, maluco inveterado), ele pode se dar ao luxo de descansar. Mas Scorsese está, aparentemente, determinado a continuar a fazer o tipo de filme que irá, como “Ilha do Medo”, se transformar “em outra coisa” para ele.

Baseado em um romance de mistério excepcionalmente difícil de Denis Lehane de 2003, “Ilha do Medo” veste o seu “algo mais” com orgulho, de modo desafiador até. É um trabalho tão estranho, isolado e enigmático quanto a ilha sombria, com chuva ricocheteando, onde a trama se passa. O herói, um policial federal de nome Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio), é uma alma atormentada, o tipo de homem que não é estranho a Scorsese, de seu primeiro filme, “Quem Bate à Minha Porta?” (1968), passando por “Caminhos Perigosos” (1973), “Taxi Driver” (1976), “Touro Indomável” (1980) e “O Aviador” (2004), no qual Leonardo DiCaprio interpreta um Howard Hughes atormentado por alucinações, bizarras fobias e assustadora paranoia. Os problemas emocionais de Teddy se manifestam, na maior parte do filme, em perturbadores pesadelos – muitos deles envolvendo sua falecida esposa – e nas mais espetaculares enxaquecas do cinema desde James Cagney em “Fúria Sanguinária”.

“Quando li o roteiro”, disse Scorsese, “fui simplesmente levado pelo personagem, senti uma empatia tremenda por ele.”

 Teddy, acompanhado por seu curiosamente passivo parceiro, Chuck (Mark Ruffalo), está na ilha Shutter a fim de investigar um desaparecimento. Esta ilha, um simples pedaço de rocha no porto de Boston, guarda um sanatório para criminosos loucos, dos quais um deles – uma mulher que matou seus filhos – de alguma maneira conseguiu desaparecer de sua cela. O espectador fica sabendo logo que Teddy deve ter outros problemas: o homem que ele acredita ter matado sua esposa pode estar internado lá, e ele suspeita dos motivos da equipe de psiquiatria do sanatório, representado aqui pela fiabilidade ambígua de Ben Kigskey e pelo grande (e magro) Max Von Sydow (que, graças a Ingmar Bergman, tem experiência suficiente para estar em ilhas sombrias, frias e que induzem à loucura).

O que faz de “Ilha do Medo” tão especial para que o diretor o tivesse dirigido não é o seu problemático protagonista, ou a mecânica de um filme de investigações. É a claustrofobia, a apertada, hermética e fechada estrutura que é tão incomum para Scorsese, cujos filmes são geralmente bem mais expansivos. Como DiCaprio, que estrelou todos os quatro longas-metragens de ficção que Scorsese dirigiu desde 2002, explicou, “com roteiros como os de ‘Gangues de Nova York’ e ‘O Aviador’, há um pouco mais de flexibilidade, algumas coisas podem ser feitas para moldar o personagem, mas em roteiros como o de “Ilha do Medo” há segmentos interligados demais. Se você mudar de registro uma vez, a história toda pode ser prejudicada.

Scorsese faz com que a estrutura se torne ainda mais delicada: “Com a edição, descobrimos que gastar muito tempo em uma só tomada poderia estragar a cena completamente”. O equilíbrio do filme, como o de seu herói, é frágil.

A mai0r parte do filme foi filmada em um sanatório abandonado em Medfield, Massachusetts, que tinha, de acordo com Scorsese, “um clima de armadilha, de um labirinto – um labirinto da mente, que é o que eu queria.”

Difícil não suspeitar, enquanto ouvimos o cineasta discorrer com certo prazer dos problemas técnicos do filme e das dificuldades de se filmar num hospital psiquiátrico – “Não é um sentimento muito agradável, o de estar lá todo dia” – que ele chegou a um ponto de sua carreira em que trabalha melhor com as dificuldades, quase não pode viver sem elas. DiCaprio descreveu o processo de trabalhar as nuances do personagem Teddy como “bem intenso, porque eu realmente não entendi quão emocionalmente complexo é o personagem até Marty e eu desmembrarmos sua jornada catártica.” Ele deu uma pausa e acrescentou: “Quando você está trabalhando com alguém como Martin Scorsese, você sabe que está indo emocionalmente para lugares que você jamais imaginaria.”

Para Scorsese, isto é diversão. Alguns cineastas, à medida que envelhecem, começam a aparar os seus estilos, para produzir trabalhos maduros, outonais, que tentem expressar com serena simplicidade a sabedoria acumulada de suas vidas. Isso soa como Martin Scorsese? Seus filmes foram sempre alimentados por uma energia nervosa e irrupções de adrenalina, e é praticamente impossível imaginá-lo trabalhando sem algum tipo de turbulência emocional, mesmo que ele tenha que levá-la por pura força de vontade.

Estimulantes podem às vezes ser necessários. Para o trabalho de direção de Scorsese, as drogas escolhidas são primeiramente a memória de velhos filmes, e a seleção da música para suas trilhas sonoras feitas de colagens. Robbie Robertson, ex-membro da The Band, encontrou Scorsese durante as filmagens do documentário musical “The Last Waltz” (1978) e tem colaborado com ele em vários filmes desde então. Robertson, creditado como supervisor musical de “Ilha do Medo”, disse: “Marty simplesmente tem esse dom único no que diz respeito à música no cinema. É um de seus milagres. Você pode perceber só de olhar a sequência de abertura de “Caminhos Perigosos”, com os Ronettes cantando “Be My Baby”. Não tem a ver com a canção ou com as letras; tem a ver com a Parede Sonora, e é por isso que é tão belo.

Em “Ilha do Medo”, disse Robertson, “foi a primeira vez em todos esses anos que ele disse para mim: ‘Deus, eu não sei o que fazer com este material musical’”. A solução que eles encontraram – estranhamente apropriada para a era de ansiedade em que o filme se passa – foi usar música clássica moderna. Nos filmes anteriores, eles usariam rock, pop ou blues; aqui as explosões sônicas vêm de compositores como Krzysztof Penderecki, John Adams, John Cage, Gyorgy Ligeti e Morton Feldman. E essa música, muito dela dissonante, forte, obsessivamente repetitiva ou simplesmente assustadora, certamente amplifica a atmosfera de horror do filme. “Algo como ‘Passacaglia’, de Penderecki”, Scorsese disse, “é muito vigoroso e pra mim reflete o que está acontecendo no interior de Teddy. Se você está com o filme, com o personagem em sua estranha jornada, este é o tipo de música que você ouve em sua cabeça.”

O interessante é que boa parte da música feroz e mal-humorada de “Ilha do Medo” soa um pouco como a música dos filmes dos anos 1950 também, como num drama psicológico angustiante de Elia Kazan ou de Nicholas Ray. É uma música voltada para o interior, uma música carregada de solidão. Canções pop são usadas com extrema moderação, porque música popular implica um mundo maior, milhões ouvindo, talvez dançando – o mundo fora da ilha e da mente atormentada do herói.

As memórias dos filmes antigos têm uma participação importante neste universo insular também. “Eu amo a memória”, disse Scorsese, “quero dizer, eu sou um preservacionista.” (Vinte anos atrás ele foi o primeiro a trabalhar na criação do Film Foundation, que restaura e protege filmes, e ainda se mantém nesse trabalho.)

Ele sempre mostra filmes clássicos para o elenco e equipe. “Nós vimos ‘Laura’, ‘Fuga do Passado’ e, é claro, ‘Um Corpo que Cai’,” disse DiCaprio. “Todos esses filmes sobre investigadores obcecados lidando consigo mesmos em suas investigações.” Ele acrescentou: “Ele queria um sentimento de filme de gênero à obra, e queria ser específico à sua época particular. É quase como se ele estivesse acessando seus sonhos ou algo do tipo, os sonhos sendo todos esses filmes. São como memórias voltando para ele.”

Então, quando Scorsese fala a respeito de “Ilha do Medo”, ele precisa inevitavelmente de falar de filmes de diretores como Jacques Tourneur, que fez o fatalista e complexo noir “Fuga do Passado” (1947). “Eu gosto de assistir “Fuga do Passado” repetidamente”, ele disse, “porque nunca sei direito onde estou, não sei o que é o início, o meio ou o fim. Eu o exibi para o Leo e outros atores só para mostrar um personagem não sabendo onde está em um dado momento e tentando descobrir isso de cena a cena.” (Ele confidenciou: “Eu não achava que iria dar certo, mas ao final Leo aplaudiu e disse para mim: ‘Este é o filme mais legal que eu já vi na vida’.”)

Aquele nervoso senso de não saber exatamente onde está, início, meio ou fim, é de alguma maneira de vital importância para Scorsese, que, apesar de estar mais perto do fim de sua carreira, tem na última década feito filmes com o agitado vigor de um iniciante, trabalhando com gêneros diferentes, sons diferentes, atores diferentes (com DiCaprio como uma constante) numa valente tentativa de se manter suficientemente desorientado para criar a sua “outra coisa”.

A trajetória dos filmes de Scorsese entre “Gangues de Nova York” (2002) e “Ilha do Medo” (que também inclui seu documentário-concerto dos Rolling Stones “Shine a Light”) é talvez sua mais vívida, variada e inventiva fase desde os anos 1970. Ele encontra um meio de se manter carregado, de qualquer maneira, mesmo que isso envolva fazer um filme tão implacável e barrocamente intimista quanto “llha do Medo”, que tem uma arquitetura de pesadelo de uma prisão em Piranesi. O que funcionar. E o que funciona para Scorsese, geralmente, é alguma forma de inquietação. Ele pode ou não ficar preso nos anos 50, mas para ele sempre é, de uma forma ou de outra, uma era de ansiedade.

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